Por Adilia Maia
Quem projeta o espaço também projeta o trabalho. Um escritório pode favorecer encontros, colaboração e troca de conhecimentos. Mas também precisa oferecer condições para ler, escrever, analisar informações e tomar decisões. O layout, a acústica, a iluminação, o mobiliário e os equipamentos influenciam essas atividades e a experiência das pessoas que as realizam.
Essa foi a reflexão proposta no workshop realizado em parceria com a GP Cabling Design: quem projeta o espaço também projeta o trabalho.
Para aprofundar esse olhar, convidamos você a comparar duas cenas. A primeira apresenta um escritório aberto, com postos próximos e predominância de laptops diretamente sobre as mesas. A segunda incorpora recursos de ajuste, tratamento acústico e maior separação entre os postos.
Ao invés de procurar “oito erros”, observe oito pontos que podem ampliar ou limitar as possibilidades de trabalhar com conforto, autonomia e segurança.
O som encontra barreiras ou se espalha?
Conversas, chamadas e movimentação fazem parte da rotina de um escritório. Quando esses sons se propagam entre os postos, podem interferir em atividades que exigem atenção.
O projeto acústico precisa considerar quais tarefas acontecem no ambiente, quantas pessoas o utilizam e onde estão as fontes sonoras. Materiais absorventes, divisórias com desempenho conhecido e espaços destinados a chamadas e reuniões podem atuar em conjunto.
Uma divisória que proporciona privacidade visual não necessariamente oferece absorção acústica. Sua contribuição depende dos materiais, das dimensões e da instalação, além das características do restante do ambiente.
A ISO 22955:2021 orienta a qualidade acústica de escritórios abertos conforme seus usos. A eficácia das soluções precisa ser verificada com o espaço ocupado e em situações representativas da rotina.
Há condições para colaborar e para se concentrar?
A proximidade facilita trocas, mas nem toda tarefa exige interação contínua. Elaborar um relatório, comparar dados ou analisar um problema pode demandar períodos de atenção protegida.
Áreas de colaboração, espaços de concentração e locais para conversas reservadas oferecem alternativas. Para funcionar, precisam estar disponíveis e contar com critérios de uso compatíveis com as necessidades das equipes.
A pergunta é: a pessoa consegue encontrar condições adequadas para a atividade que precisa realizar naquele momento?
A resposta envolve o espaço e a organização do trabalho: frequência de interrupções, disponibilidade para atender demandas e autonomia para proteger períodos de concentração.
A altura da mesa atende às diferenças entre as pessoas?
Uma superfície de altura única pode dificultar a adaptação de pessoas mais baixas ou mais altas. A regulagem da mesa amplia as possibilidades de compatibilizar o plano de trabalho com a altura dos cotovelos, a cadeira e os equipamentos.
Esse ajuste precisa preservar espaço para as pernas, permitir aproximação e favorecer o uso dos dispositivos com os ombros relaxados.
A NR-17 prevê regulagens em um ou mais elementos do conjunto do mobiliário para atender às características dos trabalhadores e à atividade. Isso não significa exigir mesas elétricas em todos os postos, mas assegurar possibilidades efetivas de adaptação.
A cadeira atende à diversidade corporal?
A estatura é apenas uma das características a considerar. Largura e profundidade do assento, encosto, posição dos braços e capacidade de carga também precisam ser compatíveis com os usuários.
Pessoas mais baixas, mais altas e pessoas com obesidade podem precisar de configurações ou modelos diferentes. A seleção deve considerar a população trabalhadora, a atividade e o espaço disponível.
Os mecanismos de ajuste precisam ser acessíveis e compreendidos. Disponibilizar uma cadeira com regulagens só produz resultado quando a pessoa consegue utilizá-las para encontrar uma posição confortável, com liberdade para mudar de postura.
Telas, teclado e mouse podem ser ajustados à atividade?
No laptop, tela e teclado estão unidos. Isso limita a possibilidade de ajustar separadamente a visualização e a posição das mãos.
Suportes e braços articulados permitem adequar altura, distância e inclinação das telas. Teclado e mouse independentes podem ser posicionados próximos ao usuário, favorecendo alcance confortável e evitando compensações do tronco e dos braços.
A NR-17 prevê adaptações de teclado, mouse ou tela para o uso não eventual de computadores portáteis.
A quantidade de telas também deve acompanhar a tarefa. Duas ou mais podem ajudar na consulta simultânea de informações, desde que sua disposição evite rotações frequentes ou posições desconfortáveis. A tela de uso predominante deve favorecer a visualização direta; as demais precisam ser organizadas conforme a frequência de consulta.
A ISO 9241-5:2024 oferece princípios para o arranjo dos postos e os requisitos posturais no trabalho com sistemas dotados de telas.
A iluminação favorece a atividade e pode ser controlada?
A iluminação precisa permitir a leitura de documentos, a visualização das telas e a realização das tarefas com conforto. É necessário considerar a quantidade de luz, sua distribuição e a presença de reflexos, ofuscamento, sombras ou contrastes excessivos.
A entrada de luz natural varia ao longo do dia. Persianas e outros dispositivos de controle permitem regular essa contribuição conforme a posição do sol e as necessidades dos usuários. A orientação dos postos e das telas também participa desse controle.
Em ambientes com pé-direito elevado, luminárias suspensas podem aproximar a iluminação do plano de trabalho. Quando a tarefa exigir, iluminação localizada pode complementar a geral. A altura, a posição e a distribuição das luminárias precisam ser dimensionadas para iluminar a atividade sem criar desconforto visual ou reflexos nas telas.
A NR-17 exige iluminação apropriada à atividade e remete à NHO 11 da Fundacentro para os níveis mínimos de iluminamento nos ambientes internos. A avaliação combina parâmetros quantitativos e qualitativos; não se resume à aparência de um espaço “bem iluminado”.
A acessibilidade permite trabalhar com autonomia?
A presença de uma pessoa cadeirante nas cenas convida a observar condições que vão além da altura da mesa.
É possível circular, manobrar e aproximar-se do posto? Há espaço livre sob o tampo? Equipamentos e comandos estão ao alcance? Os demais ambientes também podem ser utilizados com autonomia?
A ABNT NBR 9050:2020, Versão Corrigida:2021, estabelece parâmetros de acessibilidade que incluem circulação, aproximação e utilização do mobiliário. Para mesas de uso individual, contempla adequações às necessidades específicas do usuário.
A mesa regulável deve integrar esse conjunto de condições. Seu ajuste precisa conciliar alcance confortável com espaço suficiente para a cadeira de rodas, as pernas e os apoios próprios do equipamento.
O posto permite variar a postura e recuperar-se?
Conforto envolve possibilidades de movimento e recuperação ao longo da jornada. O posto deve favorecer posições confortáveis e permitir mudanças, sem impor uma postura rígida durante todo o trabalho.
Quando a atividade permitir, o projeto pode facilitar a alternância entre trabalhar sentado e em pé. Essa possibilidade precisa fazer sentido para a tarefa e para a pessoa.
Na cena reformulada, os ajustes foram representados para permitir apoio dos pés no piso aos usuários das cadeiras de escritório. Na prática, isso depende das dimensões individuais e dos limites de regulagem. A NR-17 prevê apoio para os pés quando a planta dos pés não pode permanecer completamente apoiada no piso.
O que as imagens não mostram
Metas, prazos, ritmo, interrupções, autonomia e possibilidades de pausa também influenciam a experiência de trabalhar. Melhorar o mobiliário e a infraestrutura não resolve, isoladamente, demandas incompatíveis com os recursos disponíveis.
As oito perguntas são um convite à observação. Uma avaliação completa também precisa considerar outras condições, como conforto térmico, ventilação e características específicas das atividades.
A ISO 6385:2016 propõe uma abordagem integrada dos sistemas de trabalho, considerando as relações entre pessoas, equipamentos, ambiente e organização. Essa perspectiva aproxima arquitetura, facilities, tecnologia, ergonomia e gestão desde a concepção do projeto.
Depois da implantação, é necessário observar o uso, ouvir as equipes e corrigir dificuldades. Um recurso disponível no projeto precisa se transformar em uma possibilidade efetiva durante o trabalho.
Quem projeta o espaço também projeta as possibilidades de trabalhar com conforto, autonomia e segurança.
Antes de perguntar se o escritório está pronto, vale perguntar: pronto para quais pessoas, quais atividades e quais formas de trabalhar?
Adilia Maia é fundadora da AME | Ergonomia e Fatores Humanos WORKPLACE